Um povo sem correntes, porém de joelhos, jamais será verdadeiramente livre

Hoje é um dia bastante simbólico para a trajetória de lutas do povo brasileiro. Hoje, supostamente, celebramos a nossa independência. No entanto, o 7 de setembro de 1822 apenas representou o rompimento de nossos laços políticos, a quebra, de forma parcial, das correntes que nos atavam a Portugal. Isso porque, desde então, ao longo dos 195 anos que se seguiram, com maior ou menor intensidade, sempre estivemos sob a tutela de interesses estrangeiros e nunca fomos totalmente soberanos enquanto nação. Nos momentos em que mais nos aproximamos de uma inserção autônoma dentro da geopolítica mundial e ensaiávamos trilhar um caminho de desenvolvimento interno e de maior atenção aos menos favorecidos – os esquecidos da pátria – como nos anos 1950, com Vargas, nos anos 1960, com Goulart e, mais recentemente, nos anos 2000, com Lula e Dilma, vimos essas aspirações serem sufocadas em seu nascedouro, sofrendo duros golpes, apoiados e incentivados pela elite nacional, associada ao capital internacional. Uma elite atrasada e colonizada, que se diz patriota e que ama se vestir de verde e amarelo, mas que não exita um só instante em destruir qualquer projeto inclusivo e democrático de país, mesmo que para isso seja necessário pôr todo um povo de joelhos diante das imposições de outras nações e a elas entregar nossas riquezas, nossas esperanças e nosso futuro.

Nesses quase duzentos anos de história, mesmo com todos os limites impostos pelas condições colocadas anteriormente, poucas vezes vivemos um momento de tamanho ataque aos interesses nacionais, com a entrega de nossas estatais e riquezas naturais e, igualmente, de desmonte do Estado e retirada de direitos sociais. Vale lembrar, que um país que não cuida de seu povo, que não oferece a ele seus direitos mais elementares, historicamente estabelecidos, jamais poderá aspirar ser realmente independente.

Ao mesmo tempo em que vemos e vivemos esse cenário desolador, de avanço da crise sistêmica do capital, do arrocho salarial, do aumento do desemprego estrutural – talvez como resultado do total descrédito em relação à política e às instituições – temos um quadro de profunda apatia em relação à luta, de caráter popular, para reverter tal estado de coisas. Isso não quer dizer que não haja luta e resistência. Sim, há. No entanto, não se consegue, a partir dela, mobilizar, num nível satisfatório, a camada social mais ampla, do povo menos favorecido economicamente, o único capaz de realmente fazer girar o motor da história e colocar abaixo as estruturas de dominação vigentes. Há aqui um erro de estratégia histórico e que, na atual conjuntura, tende a prolongar, talvez por décadas, o ocaso da luta de classes em nosso país. Esse erro corresponde a fé quase cega em saídas institucionais para os nossos problemas. É certo que não estamos às portas da Revolução, até porque não possuímos, ainda, as ferramentas necessárias para isso, dentre elas a mais importante de todas, o Partido Revolucionário, mas, diante do que a história tem nos ensinado, depositar todas as nossas fichas em uma saída institucional e, mais ainda, em um único líder e salvador da Pátria, como a maior parte da esquerda e dos setores progressistas faz em relação a Lula, ou procurar simplesmente por substitutos para essa função, como Ciro Gomes ou qualquer outro nome, por exemplo, é um equívoco ou uma capitulação imperdoável para quem tem a consciência da necessidade de transformação profunda pela qual precisamos passar enquanto sociedade. Parece que diante de tão complexa questão temos tido apenas soluções mecânicas e radicalizadas, como se o caminho fosse apenas a revolução imediata ou o conformismo. É necessário pensar e agir de forma dialética, observando-se sempre o imediato, porém sem perder de vista o horizonte – o futuro – que não pode ser para as gerações vindouras, como muitos, talvez por comodidade, tendem a acreditar. Esse futuro pode e deve ser para amanhã, para logo agora, se possível, pois a história não espera, como os acontecimentos que se sucederam a partir de 2013 tendem a nos mostrar sem qualquer piedade. A história se escreve a cada dia e se não formos nós a escrevê-la, serão nossos inimigos de classe.

Se comparado a outros Estados nacionais, o Brasil é um país jovem e, como apontado anteriormente, jamais desfrutou de plena independência, porém o risco que corremos hoje vai muito além da simples tutela que sempre pairou sobre nós. O risco que corremos hoje é o de desparecermos enquanto povo, enquanto nação. Para quem achar nessa avaliação um certo exagero, lembremos do momento histórico que iniciávamos em 2003 e, mais precisamente, a partir de 2007, e o que vivemos hoje, uma década depois. Lembremos também os exemplos que as mais recentes guerras imperialistas nos legaram, principalmente na Ásia e na África, em países como o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e atualmente a Síria, totalmente destruídos. Somos um dos países mais ricos e geopoliticamente importantes do mundo. Nossas reservas de água, petróleo, ouro e demais minerais – além de nossa biodiversidade e de nosso solo – são tesouros de valor incalculável. Junto às nossas nações irmãs latino-americanas, constituímos um continente que, por sua riqueza humana e natural, tem sido vítima de uma das espoliações mais cruéis e profundas que a história já assistiu. Por isso, nos querem eternamente como servos e jamais como senhores de nosso próprio destino. A ousadia das últimas duas décadas, fruto da luta incansável de nossa gente pela construção de uma alternativa soberana para as Américas, por meio de governos de caráter popular e progressista, tende a ser cobrada de forma implacável pelas grandes potências imperialistas, como já vem ocorrendo. Deduzimos dai que, para uma verdadeira e definitiva independência, é preciso imprimir à nossa luta um caráter de classe, internacionalista, revolucionário e socialista. Os inimigos da independência do Brasil e de todos os povos oprimidos do mundo são a burguesia e o imperialismo, que usarão, enquanto lhes for permitido, a tática do “dividir para reinar”. Nossa tarefa é derrotá-los, junto a nossos irmãos de classe e, por via revolucionária, colocando abaixo todo o sistema de exploração capitalista, construirmos a sociedade do futuro, a sociedade socialista.

Um povo sem correntes, porém de joelhos, jamais será verdadeiramente livre!

Em defesa de nossas estatais e de nossas riquezas naturais!

Em defesa do povo brasileiro e de nossa soberania!

Viva o Brasil! Viva a autodeterminação dos povos no mundo inteiro!

Abaixo o capitalismo!