Documentário: Marighella – Retrato Falado do Guerrilheiro

Marighella, filme do documentarista brasileiro Silvio Tendler, o documentário conta a história, as polêmicas, as vitórias e derrotas de Carlos Marighella, um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano” foi fundador da Ação Libertadora Nacional, primeiro movimento armado pós-64. Foi homenageado com o filme no ano em que completaria 90 anos.

Ficha técnica

direção: Sílvio Tendler
montagem: Sueli Nascimento
videografismos: Patrícia Tebet
locução: Othon Bastos
trilha sonora: Eduardo Camenietzki
interpretada por: Ithamara Koorax
consultoria de pesquisa: Vladmir Sachetta
pesquisa: Antônio Fernandes e Clarisse Mantuano
assistência de direção: Clarisse Mantuano e Silvio Arnaut

Algumas composições nacionais homenagearam a história de Marighella entre elas “Um comunista” de Caetano Veloso e “Mil faces de um homem leal” do grupo Racionais MC’s:

Um Comunista
Caetano Veloso

Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá

Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos
Estivessem lutando
Contra as nações terror
Que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses
De poder e dinheiro
Quase sempre por menos
Quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado:
“eu que tinha morrido”
E que ele estava vivo,

Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
Não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
Segue trágica, sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
Samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror

Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
Discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Ela luz e era treva
Venta de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

Mil Faces de Um Homem Leal (Marighella)
Racionais Mc’s
A postos para o seu general
Mil faces de um homem leal
A postos para o seu general
Mil faces de um homem leal

Protetor das multidões
Encarnações de célebres malandros
De cérebros brilhantes
Reuniram-se no céu
O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer
Consumado, é o que é, assim foi escrito
Mártir, Mito ou Maldito sonhador
Bandido da minha cor
Um novo messias
Se o povo domina ou não
Se poucos sabiam ler
E eu morrer em vão
Leso e louco sem saber
Coisas do Brasil, super-herói, mulato
Defensor dos fracos, assaltante nato
Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis
Tramam 30 fariseus contra Moisés, morô
Reaja ao revés, seja alvo de inveja, irmão
Esquina revelam a sina de um rebelde, óh meu
Que ousou lutar, honrou a raça
Honrou a causa que adotou
Aplauso é pra poucos
Revolução no Brasil tem um nome
Vejam o homem
Sei que esse era um homem também
A imagem e o gesto
Lutar por amor
Indigesto como o sequestro do embaixador

O resto é flor, se tem festa eu vou
Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show
Presta atenção que o sucesso em excesso é cão
Que se habilita a lutar, fome grita horrível
A todo ouvido insensível que evita escutar
Acredita lutar, quanto custa ligar?
Cidade chama vida que esvai por quem ama
Quem clama por socorro, quem ouvirá?
Crianças, velhos e cachorros sem temor
Clara meu eterno amor, sara minhas dores
Pra não dizer que eu não falei das flores

Da Bahia de São Salvador Brasil
Capoeira mata um mata mil, porque
Me fez hábil como um cão
Sábio como um monge
Antirreflexo de longe
Homem complexo sim
Confesso que queria
Ver Davi matar Golias
Nos trevos e cancelas
Becos e vielas
Guetos e favelas
Quero ver você trocar de igual
Subir os degraus, precipício
Ê vida difícil, ô povo feliz

Quem samba fica,
Quem não samba, camba
Chegou, salve geral da mansão dos bamba
Não se faz revolução sem um fuga na mão
Sem justiça não há paz, é escravidão

Revolução no Brasil tem um nome

A postos para o seu general
Mil faces de um homem leal
A postos para o seu general
Mil faces de um homem leal

Marighella

Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer
Por mim, por você, por ter coragem em dizer

Texto extraído do sitio do movimento À MARIGHELLA

Um dos sete filhos do operário Augusto Marighella, imigrante italiano da região de Emília, terra de destacados anarquistas, e da baiana Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos africanos trazidos do Sudão (negros hauçás envolvidos na revolta dos malês), nasceu em Salvador, capital da Bahia, residindo na Rua do Desterro 9, Baixa do Sapateiro. Concluiu o seu curso primário e secundário. Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor da Bahia Juracy Magalhães. Liberto, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos. Em 1934, abandonou o curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Bahia para ingressar no PCB – Partido Comunista do Brasil (à época com este nome). Tornou-se então, militante liberado e dirigente do partido, e rapidamente foi para São Paulo e para o Rio de Janeiro, trabalhando na reorganização do PCB.

Em 1º de maio de 1936, durante a ditadura Vargas, foi preso por subversão e torturado pela polícia de Filinto Müller. Permaneceu encarcerado por um ano. Foi solto pela “macedada” (nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação). Ao sair da prisão entrou para a clandestinidade, até ser recapturado, em 1939. Novamente foi torturado e ficou na prisão até 1945, quando foi beneficiado com a anistia pelo processo de redemocratização do país.

Elegeu-se deputado federal constituinte pelo PCB baiano em 1946. Nesse período teve um breve relacionamento com Elza Sento Sé, operária da Light, com quem acabou tendo um filho, Carlos Augusto Marighella, nascido em 22 de maio de 1948 no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, antes, em janeiro, Marighella voltou a perder o mandato, em virtude da nova proscrição do partido. Regressando à clandestinidade, ocupou diversos cargos na direção partidária. Inclusive, foi convidado pelo Comitê Central do PCB para passar um período na China. E, entre os anos de 1953 e 1954 residiu na China a fim de conhecer de perto a recente revolução chinesa.

Em maio de 1964, após o golpe militar, Marighella é baleado e preso por agentes do DOPS dentro de um cinema, no Rio. Liberto em 1965 por decisão judicial, escolhe a luta armada contra a ditadura, entendendo que era a singular maneira de ousar derrotar o regime facínora ditatorial. Em dezembro de 1966, Marighella renuncia seu cargo na Comissão Executiva Nacional do PCB. Em agosto de 1967, participa da I Conferência da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), realizada em Havana, Cuba, a despeito da orientação contrária do PCB. Aproveitando a estada em Havana, redigiu Algumas questões sobre a guerrilha no Brasil, dedicado à memória do guerrilheiro Che Guevara, e tornado público pelo Jornal do Brasil, em 5 de setembro de 1968. Ainda em Cuba, Marighella escreve carta de desfiliação partidária, denunciando o peleguismo burocrata do PCB, que havia optado pela nula resistência pacífica ao regime ditatorial.

Ao regressar para o Brasil, Marighella fundaria a Ação Libertadora Nacional (ALN). A organização acumularia largas conquistas, tendo enorme êxito em suas operações. O plano originário da ALN era acumular forças e estrutura com ações urbanas, ganhar prestígio com a grande população por meio da tática de vanguarda armada, a única, diga-se passagem, possível naquele período de ditadura, e, enfim, quando já estivesse forte e bem preparada, a ALN entraria para a segunda etapa da guerrilha, a rural. Ocorre que repentinamente, em setembro de 1969, a ALN (do Rio de Janeiro) participaria do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em uma ação conjunta, bem-sucedida, com o MR-8 (movimento revolucionário 8 de outubro) que visava libertar inúmeros companheiros presos políticos. Porém, após essa ação, a ditadura apertaria o cerco mais ainda. E, com o recrudescimento do regime militar, os órgãos de repressão concentrariam esforços na captura do Comandante Marighella, considerado o principal inimigo (o número 1) pelos militares.

Na noite de 4 de novembro de 1969, Marighella foi surpreendido por uma emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista. Ele foi morto a tiros por agentes do DOPS, em uma ação coordenada pelo terrorista delegado Sérgio Paranhos Fleury. Mesmo com sua morte, a ALN continuou em atividade até o ano de 1974. O sucessor de Marighella no comando da ALN foi Joaquim Câmara Ferreira, o velho Toledo, que também foi morto por Fleury no ano seguinte. O último líder da ALN foi Carlos Eugênio Sarmento da Paz, o Clemente, que, por toda sorte, sobreviveu.

Poesias

Marighella escrevia poesias e, aos 21 anos, durante as aulas de engenharia divertia professores e colegas fazendo provas em verso, mais uma real comprovação de sua genialidade. Da mesma forma, compôs em versos ataques ao interventor baiano Juracy Magalhães, fato que lhe valeu sua primeira prisão, seguida de tortura, em 1932. Ainda na prisão, desta feita em 1939, ele compôs o poema Liberdade:

“(…) E que eu por ti, se torturado for,

Possa feliz, indiferente à dor,

Morrer sorrindo a murmurar teu nome.

Liberdade.”

Sua obra poética está reunida no livro Rondó da Liberdade.

Minimanual do Guerrilheiro Urbano

Uma das mais divulgadas obras de Marighella, O Minimanual do Guerrilheiro Urbano foi escrito em 1969, para servir de orientação aos movimentos revolucionários. Circulou em versões mimeografadas e fotocopiadas, algumas diferentes entre si, sem que se possa apontar qual é a original. Nesta obra, detalhou táticas de guerrilha urbana a serem empregadas nas lutas contra governos ditatoriais. Certamente, um dos livros políticos brasileiros mais lidos no mundo.O Minimanual foi utilizado por diversos grupos revolucionários.

A Crise Brasileira

O trabalho teórico no qual analisa a conjuntura nacional a partir da estrutura de classes do Brasil, e critica o PCB por se resguardar de qualquer atividade consequente, acomodado na ideia de um processo eleitoral limpo, e, ao mesmo tempo, refratário ao divórcio da burguesia nacional, setor já flagrantemente golpista. A obra “A Crise Brasileira” é uma breve crítica, ainda atual, às forças pacifistas e conciliatórias da socialdemocracia.

Outros escritos políticos

Alguns escritos políticos de Marighella, embora redigidos por ele em português, ganharam primeiro uma edição em outro idioma, devido a censura imposta a obras do gênero pelo regime militar brasileiro. É o caso de Pela Libertação do Brasil, que, em 1970, ganhou uma versão na França financiada por grupos marxistas.

Estão disponíveis em português: Alguns Aspectos da Renda da Terra no Brasil (1958), Algumas Questões Sobre as Guerrilhas no Brasil (1967) e Chamamento ao Povo Brasileiro (1968).

Em dezembro de 1968 o guerrilheiro divulgou o manifesto Chamamento ao Povo Brasileiro, no qual expunha as principais bandeiras defendidas por sua organização, a Ação Libertadora Nacional:

  • Fim dos privilégios e da censura

  • Eliminação da corrupção

  • Liberdade de criação e liberdade religiosa

  • Libertação dos presos políticos da ditadura

  • Eliminação dos órgãos da repressão policial

  • Expulsão dos americanos do país e confisco de suas propriedades

  • Monopólio estatal das finanças, comércio exterior, riquezas minerais, comunicações e serviços fundamentais

  • Fim do latifúndio e garantia de títulos de propriedade aos agricultores

  • Confisco das fortunas ilícitas dos grandes capitalistas

  • Garantia de emprego a todos os trabalhadores e às mulheres

  • Redução dos aluguéis, proteção aos inquilinos e garantia da casa própria

  • Reforma do sistema de educação e expansão da pesquisa científica

  • Tirar o Brasil da condição de satélite da política externa americana

A Marighella – Nosso Comandante vive!

Carlos Marighella (Salvador, 5 de dezembro de 1911 – São Paulo, 4 de novembro de 1969) foi político, guerrilheiro, poeta e herói brasileiro. Foi um dos principais organizadores da resistência contra o regime militar. Chegou a ser considerado o inimigo “número um” do regime militar, e morreu no combate ao sistema capitalista e pelo socialismo no Brasil.

Para a Organização A Marighella, Carlos Marighella, e não diferente poderia ser, é o nosso grande Camarada e eterno Comandante. Marxista-Leninista, socialista, patriota, internacionalista, comunista, revolucionário, amante das raízes do povo brasileiro, legítimo popular que amava o futebol e o carnaval, inegavelmente, Marighella é o homem público mais completo da política brasileira no século XX. Para tanto, acreditamos que ele seja nosso líder revolucionário ainda presente, o dirigente perpétuo da revolução socialista brasileira, o símbolo de referência para o povo que ousa lutar, ousa dizer, ousa vencer. Marighella vive entre nós, está presente, agora e sempre!