Os monopólios da mídia e o golpe no Brasil

 

Por Jairo Castelo Branco 

A ditadura civil-militar de 1964-85 rompeu com a ordem democrática, censurando a liberdade de imprensa, realizando prisões e interrogatórios arbitrários, sequestrando e desaparecendo com jovens estudantes, professores, camponeses, dentre outros, tudo isto de forma científica, sistemática. A imposição da Lei de Segurança Nacional como ideologia central das ações das forças militares, ceifou as liberdades e a destacada mobilização popular da época.

A professora Danielly Nilin Gonçalves, em sua obra “O preço do passado: Anistia e reparação de perseguidos políticos no Brasil”, apresenta tabela com dados relevantes sobre este momento histórico como: 7.367 denunciados, 6.385 indiciados, 1.485 declarantes, 2.183 testemunhas, 2.985 cassados pelo Ato Institucional – 1, 1.583 cassados pelo Ato Institucional – 5, 128 ex-presos banidos, 263 estudantes atingidos pelo 477, 3.860 civis, militares, professores e cientistas demitidos, 10.000 funcionários públicos demitidos, 200 presos condenados pela Lei de Segurança Nacional, 360 desaparecidos políticos, 25.000 presos políticos e 10.000 exilados.

Os monopólios da mídia apoiaram a investida golpista de 1964. A ideia partia do princípio da necessidade de legitimar “os mártires da democracia”, aqueles que resguardando as liberdades essenciais para o pleno desenvolvimento das potencialidades nacionais, foram “coagidos pela história” a romper com a ordem constitucional, depor um governo eleito, fechar o Congresso Nacional, legislar através de Atos Institucionais e empreender uma caçada as lideranças populares. O jornal o Globo, do Rio de Janeiro, em 4 de abril do citado ano, discorre:

Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ter a garantia da subversão, a ancora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada […]. (BRASIL, 1964, online)

O Estado de Minas, de Belo Horizonte, em 2 de Abril de 1964:

Multidões em júbilo na Praça da Liberdade. Ovacionados o governador do estado e chefes militares. O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade. Toda área localizada em frente à sede do governo mineiro foi totalmente tomada por enorme multidão, que ali acorreu para festejar o êxito da campanha deflagrada em Minas (…), formando uma das maiores massas humanas já vistas na cidade. ( BRASIL, 1964, online)

O mesmo jornal O Globo, do Rio de Janeiro, em 02 de Abril:

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos”

“Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais( BRASIL, 1964, online)

O jornal O Dia, Rio de Janeiro, em 02 de Abril de 1964:

A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento ( BRASIL, 1964, online)

O jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de janeiro, também no dia 02 de Abril de 1964:

Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou., o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu. ( BRASIL, 1964, online)

Jornal O Povo, de Fortaleza, em 03 de abril:

A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil (BRASIL, 1964, online)

Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, em seu editorial, do dia 1 de abril de 1964: 

Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade … Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas (BRASIL, 1964, online)

Correio Braziliense, em 16 de abril:

Milhares de pessoas compareceram, ontem, às solenidades que marcaram a posse do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República …O ato de posse do presidente Castelo Branco revestiu-se do mais alto sentido democrático, tal o apoio que obteve (BRASIL, 1964, online)

Jornal do Brasil, em 01 de abril de 1964: 

Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada. (BRASIL, 1964, online)

Novamente em seu editorial, desta vez em 31 de março de 1973,o Jornal do Brasil declara apoio ao regime:

Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer e afirmar-se. Negue-se tudo a essa revolução brasileira, menos que ela não moveu o País, com o apoio de todas as classes representativas, numa direção que já a destaca entre as nações com parcela maior de responsabilidades. (BRASIL, 1973, online)

Já em 07 de outubro de 1984, como que saudoso com o que ainda viria a acontecer, o Jornal O Globo, em seu editorial intitulado “Julgamento da Revolução”, assinado por Roberto Marinho exalta:

Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. […] Acompanhamos esse esforço de renovação em todas as suas fases. […] Nos meses dramáticos de 1968 em que a intensificação dos atos de terrorismo provocou a implantação do AI-5. […] Neste momento, em que se desenvolve o processo da sucessão presidencial, exige-se coerência de todos os que têm a missão de preservar as conquistas econômicas e políticas dos últimos decênios. O caminho para o aperfeiçoamento das instituições é reto. Não admite desvios aéticos, nem o afastamento do povo. Dotar outros rumos ou retroceder para atender a meras conveniências de facções ou assegurar a manutenção de privilégios seria trair a Revolução ou seu ato final. (MARINHO, 1984, online)

      Em 2016, diante do nanismo político e moral dos membros da oposição brasileira, incapazes, portanto, de mobilizar a sociedade brasileira em torno de suas bandeiras, mas uma vez os monopólios da comunicação foram chamados à responsabilidade de manipular as massas em torno da desesperança, da negação da política, camuflada em defesa de uma luta aberta contra a corrupção e em defesa da moralidade pública.

       Desta feita, os meios de comunicação golpistas contaram com profunda contribuição do Poder Judiciário e do aparato policial investigativo, através dos vazamentos seletivos de informações, da tortura instituída através das delações premiadas (que atacassem membros da esquerda brasileira, obviamente), e ainda toda sorte de atentado à segurança nacional cometidos por um Juiz de primeiro grau, a parcialidade gritante do Ministro Gilmar Mendes do STF, que na prática coordena as ações da Suprema Corte brasileira, e a atuação caolha do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot.

        Que fique claro, a Rede Globo, a Folha de São Paulo, a Revista Veja, e seus sócios menores, são inimigos da soberania nacional e da democracia!!!